2008

21 de nov. de 2007

Ensaios: A busca de uma identidade contemporânea na atuação. - Interpretação/Eu-cênico

A proposta da pesquisa a cerca do eu cênico surge para nós atrizes, como um desafio de compreensão e apropriação que esse trabalho de criação em grupo demandou.
Num universo dramaturgico onde não há personagens, não há linha narrativa como história, a interpretação fica calcada em regras outras para a criação, um novo jogo, uma nova estrutura de realização.
De início, frente ao paradoxal vazio repleto de infinitas possibilidades que existe neste novo “jogo”, ainda com regras nebulosas, não sabíamos quais as questões pertinentes a serem feitas. A priori sempre: muita energia gasta e pouco resultado.
Mas a busca dessa “voz” que se encaixasse no que queremos dizer é de todos e neste âmbito contemporâneo em que a virtualidade se apresenta tão necessária quanto a realidade, tentamos catalisar o ritmo das cidades que nos permeia para dizer o que nos propusemos.
Da mesma forma que as cidades o espaço cênico escolhido também precede esses corpos e os “vetoriza” numa direção óbvia: o público.
Aos poucos, essa que se apresenta para nós como uma nova linguagem, vai se alimentando das regras espaciais que inevitavelmente se impõem, tão influentes quanto nuvens cinza entre os prédios num dia de trabalho, as luzes de muitos postes numa rua deserta, pedras de calçada, janelas, gente.
A urgência de nossa premissa fica clara: um fragmento, um vestígio de gente, que nessa era de “modernidade líquida”[1] fica tão diluído que quase não se encontra. Nosso objetivo: um lapso do êxtase do encontro compartilhado entre intérpretes e público dentro dos códigos criados na atmosfera cênica, sem medo e em sua forma mais ingênua.
Nossa premissa de interpretação se apresenta, me parece, como a mais primitiva possível. As próprias atrizes é que estão inseridas nessa negociação, para tanto a única moeda que se usará será a própria construção do “lúdico”.
A partir desta compreensão geral do grupo com relação ao trabalho é que começam a surgir as questões certas (questões, uma vez que as respostas estão em processo). Não há personagens em situações simuladas ou inseridas numa determinada narrativa, a situação é esta; a negociação compartilhada inevitavelmente entre público e atores num espaço cênico qualquer, no limite, deste tempo/espaço “real” para um outro tempo/espaço, ficcional, mas muito próximo.
O que é dito embora venha imbuído de um lirismo nada cotidiano é na verdade muito direto e objetivo com relação à negociação, o jogo de metáforas é que se responsabiliza por instaurar a atmosfera lúdica. A poesia vem quase crua desafiando os graus de comunicação frente a essa virtualidade contemporânea.
O eu-cênico nisso tudo.
A busca de um persona que caminhe exatamente sobre o primeiro alinhavo entre o eu (ator pré-expressivo) e o cênico (o ator em atitude ficcional, comprometimento lúdico).
Como se encarássemos como a primeira etapa de uma imersão cênica, o mergulho, de onde ainda de vê a margem através da primeira lâmina de água. Não vamos mais fundo, não emergimos. E é só essa primeira e sutil lâmina “ficcional” que nos interessa para garantir uma espécie de máscara, um primeiro sussurro lúdico, a voz dessa criatura infinita, embrião disponível de personagem qualquer, a mercê de um só tempo/espaço, o agora.
A máscara, (se é que pode ser chamada assim), é quase translúcida, permeável, garantida unicamente pela situação inegável e infinita do jogo.
Assim a base da interpretação se estabelece nessa construção coletiva dos "parâmetros de jogo", influenciada pelo cenário, encenação, direção, atores e dramaturgia.
Uma vez definidas as regras é através delas que temos a liberdade de experimentar as possibilidades e a cada momento modificar a obra como um todo.
[1] Zygmunt, Bauman Modernidade Líquida Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro, 2001
By Viviana Collety

Um comentário:

Anônimo disse...

temi pela minha insanidade se continuasse a ler o texto a partir da 10a. linha...