2008

21 de nov. de 2007

Ensaios: Excesso de recursos – luz e trevas.

Pesquisa de luz é o termo que melhor se adequa ao que se realiza comumente no Brasil. Pela ausência de recursos, pela falta de apoio, pelas impossibilidades financeiras, a maioria dos iluminadores têm a obrigação de ser criativos. A necessidade é mãe e a cena o pai dos trabalhos de luz realizados pelos pequenos grupos sem acesso a elipsoidais, move lights, projetores.
O que poderia gerar uma ineficiência artística pode ser adotado como possibilidade expressiva. Não é a quantidade de equipamentos de luz que traduz um bom trabalho, mas a sua utilização consciente e consistente com as intenções do trabalho. Muitas das soluções encontradas mundo afora são resultado da inventividade que os parcos recursos obrigam a surgir.
Assim como a invenção do ímpar, genuinamente uma invenção nacional, que poderia ser uma falta de opção pode ser traduzida numa opção se convier com as necessidades da cena.
É claro que isso gera também cenas mal iluminadas, projetos de luz realizados na última hora, ausência de pensamento por trás da realização; mas isso ocorre também com quem tem todos os recursos e chama o iluminador apenas nos ensaios gerais para iluminar a cena.
A luz é expressão cênica, traduz uma idéia do e sobre o espetáculo, permite diálogo, e trabalha muito próximo da composição musical, pode ser signo direto ou indireto. A luz pode ser mensagem e pode ser abstração, sensação traduzida instantaneamente para a percepção ou signo a ser lido.
Pesquisa de luz com parcos recursos trás como implicação entender que trabalhamos, parte por falta – afinal gerais exigem bastante luz – parte por opção – ímpares são baratos e iluminam muito – sempre com duas possibilidades evidentes; a iluminação, a claridade, a luz e sua ausência, a escuridão, as trevas.
Essa informação é útil na medida em que ao permitir a vida das sombras, a ausência de luz possibilita que parte da cena possa ser completada pela invenção dos espectadores. O retorno das sombras trás diversas possibilidades de linguagem, evidentemente, nos aproximamos dos expressionistas e suas grandes sombras e jogos de luzes, mas podemos criar novos jogos. Criar sombras que sejam horizontais e não de plongé ou contra-plongé. Sombras conflitantes, desfocadas, bruxuleantes. Podemos não criar sombras, mas áreas de sombras. Escuridão como opção. Não iluminar por vontade e não por falta.
Parcos recursos somente se comparados àqueles que podem todas as possibilidades, inclusive optar por não ter possibilidades. Mas a iluminação cênica sobreviveu, muito bem diga-se de passagem, por séculos sem eletricidade, com pouca eletricidade já há muito o que fazer.
Mas deve-se evitar o emprego abusivo dos recursos, nada pior para um trabalho, quando ao final o comentário é de que a luz estava muito boa, muito bonita. Isso não significa um bom trabalho de luz, pelo contrário, significa um péssimo trabalho de luz, onde a luz não trabalhou com a cena usurpou-a, o cuidado para não roubar a cena sem intenção deve ser constante, porque é sempre fácil a alternativa de uma iluminação linda, mas que não dialoga com a cena.
Outro cuidado é a invisibilidade, a luz é signo e poesia, trabalha numa dupla função. Não ser notada, não ser vista é sinal também de ineficiência, ela é composição com a cena um elemento e como tal deve ser tratado, não deve ser um adorno, ou antes só o pode ser se notada como adorno, como opção.
Acompanhar pequenos grupos significa estar atento aos detalhes e possibilidades do processo. Entender seu funcionamento e as regras implícitas a ele. Trabalhar com a direção, a criação sonora, a criação plástica e tudo aquilo que compõe a cena.
Mas principalmente estar atento às necessidades da cena. Compor com a luz é trabalho que exige parceria entre a técnica e a teoria. O que é possível com o que é necessário.
Acostumados com os efeitos cinematográficos, os efeitos teatrais podem parecer parcos, mas só o serão se houver a vontade de comparação. As linguagens dos diferentes meios permitem que a simplicidade e a imaginação alcancem resultados, muitas vezes, mais interessantes do que os obtidos pela indústria da computação gráfica.
By Humberto Issao

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