2008

21 de nov. de 2007

Ensaios: Sobre as idéias motrizes por trás dos sons de "Além de Cada Solidão"

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Quatro paredes negras formando, junto com o chão, uma caixa. Pessoas entrando e saindo dessa caixa como se as paredes fossem de pedaços de pano, falando e fazendo solidão, tentando e tentando comunicar, fora do menor controle do centro desse sistema caótico: quem está vendo?
MENTE, da onde não se sai. Nunca. Aqui dentro, onde as fronteiras estão sempre a um desejo, mas os limites estão sempre onde a perspectiva foge. Aqui dentro, onde nosso mundo de fato existe - inteiro, infinito - onde tudo que entra pelas frestas é apropriado pela (in)consciência - não faz diferença, na verdade - e se torna uma parte do próprio mundo, de nós. Solidão. É isso (?).
Nessa ambientação foi concebida a trilha do espetáculo "Além de Cada Solidão", a partir da idéia de que a música não iria descrever diretamente o desenrolar das cenas, mas sim compor uma dimensão espacial além das três visuais com as quais estamos habituados, fazendo parte do cenário, ou seja, daquele espaço que está dentro de nós, e onde, paradoxalmente, estamos nós, presos.
É sempre complicado falar de música programática, ou seja, música que descreve alguma coisa que se explica logicamente pela linguagem formal, mesmo que a música baste a si, como "As Quatro Estações" de Vivaldi. Uma trilha sonora para um espetáculo teatral é ainda mais complexa, pelo simples fato de que seu equilíbrio com o resto do trabalho ser delicado, e as falhas dificilmente passam sem deixar prejuízos de - no mais brando dos casos - ambientação ao público.
Levando tudo isso em consideração, os músicos responsáveis pela trilha do espetáculo, a escreveram pretendendo passar a sensação do infinito dentro de um espaço com fronteiras, sendo esse infinito preenchido ainda que momentaneamente por solidão, raiva, alegria, tristeza, serenidade, melancolia, desespero, alívio, ou alguma combinação possível desses.
O espaço escolhido para a montagem também facilita muito esse trabalho; com o público acomodado no centro da ação, pode-se espacializar o som de uma maneira bem livre, ou seja, pode-se diferir o som de pontos específicos - nesse caso 6 pontos - gerando movimentação e conferindo a ele mais um elemento de linguagem - a movimentação do som comunica alguma coisa extra-estética. Assim, elimina-se a idéia de que o som vem de dois lugares específicos - o conhecido som estéreo, composto de dois canais, o esquerdo e o direito, como são os fones de ouvido do mp3 player vendido na loja mais perto da sua casa - imitando nossos ouvidos, que não são nada mais que captadores de informações externas a nós - externas até o momento em que adentram nossa MENTE - e sim de vários pontos ao redor do público, como acontece na nossa cabeça.
Optou-se por trabalhar uma estética derivada da música eletrônica - loops, sons exclusivamente derivados de sintetizadores digitais - ou no mínimo submetidos a tratamento digital -, transição entre duas músicas feitas a partir da mistura delas, etc. Pretende-se estabelecer assim o mínimo de referências externas possível, deixando esse trabalho por conta do público, que já tem o suficiente dentro de si para associar ao som.
By Gustavo Pincanço

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