2008

21 de nov. de 2007

Ensaios: Hipercena

Vivemos tempos hipermodernos pelo menos é a constatação possível[1] de ser proferida no quadro atual. Daí a urgência de sair da pós-modernidade. Dos embates entre as diversas correntes e a aceitação da diversidade em nome de um novo programa, uma saída mais complexa e mais intrigante.
A hipermodernidade é um tempo paradoxal onde a contradição está inserida dentro do cerne da sociedade e dentro dos indivíduos, diferente do mundo pós-moderno, marcado pela morte das narrativas organizadoras e a pluralidade das linhas de orientação a hipermodernidade convive com a contradição e para tanto, nada mais natural que uma hiper-cena, hiper-personagens, hiper-dramaturgias.
Nesse mundo hipermoderno o paradoxo está inserido dentro das pessoas, Elas são consumistas e ecológicas, egoístas e humanitárias. Uma parte não exclui a outra, não anula a outra. Ser ambos é uma necessidade e uma realidade. Não se pode negar a sociedade de consumo nem a sociedade consciente e politicamente correta, a teoria sempre correndo atrás da realidade.
Os personagens ficcionais não escapam a esse tipo de construção. Daí o reconhecimento tão profundo que se têm com os ditos anti-heróis, aqueles personagens que classicamente seriam etiquetados como vilões recebem agora características positivas, mais humanas e, portanto mais amparadas na doxa[2] contemporânea.
Não por menos anti-heróis povoam o cenário atual desde a cultura popular, vide personagens como Wolverine ou Jack Sparrow, até a outras esferas da cultura, basta ver o personagem principal de Old boy ou os personagens criados por Alejandro Gonzáles Iñárritu. São personagens que não podem ser classificados como heróis no sentido clássico e que não são vilões, tais distinções se esfumaçam na hipermodernidade.
O mesmo se dá com os indivíduos cotidianos e seus conflitos. Não há preto e branco, mas tons variados de cinza, provavelmente sempre foi assim, mas antes essa realidade era ignorada na maior parte das criações. E a doxa contemporânea exige dos personagens falhas cabais, não pequenos defeitos, mas contradições internas, conflitos não resolvidos, peças que não se encaixam como acontece à eles próprios.
O mesmo se dá nas dramaturgias contemporâneas, personagens criados por um Kòltés, uma Sarah Kane ou um Lagarce não podem ser facilmente enquadrados, eles não são passiveis de uma definição única, para os dias de hoje Hamlets devem povoar a cena.
A mesma contradição que se opera dentro do texto também se opera dentro da cena. Daí a necessidade de se assimilar, amalgamar. Tendências dispares no século passado agora andam de mãos dadas, o épico, o dramático e o lírico se mesclam de formas a tornar impossível separá-los. Brecht e Artaud, Staniislavsk e Kabuki, Kathakali e Cavalo Marinho as contradições não se separam se associam, comungam. As estéticas absorvem o paradoxo e convivem com ele.
Assim os corpos são outros, corpos híbridos[3] tornam-se a expressão comum em todos os meios de criação onde o corpo é a mídia primária. Porque não se têm mais uma construção técnica única e continua mas, pelo contrário, técnicas diversas de treinamento corporal em vez de se excluírem se mesclam, convivem. O sincretismo levado ao corpo, ao pensamento à ação.
A hipercena, como a hipermodernidade não está concluída e nem poderia, pelo contrário, ela começa a esboçar suas intenções e orientação como o próprio Lipovetsky aponta mas, podemos deixar a pós-modernidade, podemos por fim a um movimento sem movimento, apologético do fim para adentrar em um retorno, uma volta e uma busca por linguagem.
Não será possível ignorar àquilo que foi instaurado, a sociedade de comunicação[4] é uma potência que não dá sinais de enfraquecimento, pelo contrário poderíamos até dizer que ela avança para uma sociedade de comunicação, contra-comunicação, descomunicação talvez. Não se pode confiar nos meios de comunicação nem de esquerda, nem de direita. A polícia tem seus porta-vozes, os traficantes os deles, as ongs outros, todos têm blogs. A informação se perde entre a profusão.
A doxa se torna mais complexa e mais rizomatica[5] a incerteza e a certeza convivendo paradoxalmente.
A encenação em tempos hipermodernos vai buscar, provavelmente, trazer para o seu trabalho o paradoxo. A cena deixa de ter uma leitura, uma possibilidade, já nasce com o paradoxo dentro dela sem com isso ser conflitante, dilacerante ou acidental, a cena apela para o amálgama, para a fusão, uma hipercena.
Como a hipermodernidade a hipercena acontece, deverá acontecer. Não se pode negar o tempo em que se vive. Mas deve levar seu tempo, não devemos nos esquecer que o teatro não é como o cinema, onde como diz Sontag, “a maioria dos cineastas tem mais conhecimento do conjunto da história de sua arte que a maior parte dos diretores teatrais sobre o passado mais recente da sua” e não à toa “...comparadas com o teatro, as inovações no cinema parecem ser assimiladas com mais eficiência, parecem diretamente mais partilháveis – entre outras razões, porque os novos filmes circulam rápida e amplamente. E, em parte, porque virtualmente toda a cultura cinematográfica pode ser consultada no presente.”[6].
Por uma questão de suporte, o teatro é temporal acima de tudo, faz parte da linguagem e como tal impossibilita muitas trocas, grande parte de obras acabam sendo “vistas” somente por relatos, fotos e não por menos as discussões são mais dispersas, mais diluídas, ainda assim a informação não pode ser contida.
A hipercena é uma proposição a ser averiguada, testada, provavelmente repensada, mas difere da cena que se construía na pós-modernidade. E a diferença é informação e só na diferença entre um período e outro podemos captar e trabalhar essa informação.
[1] Ver o livro Tempos Hipermodernos de Lipovetsky, Gilles e Charles, Sébastien Editora Barcarola, São Paulo, 2004
[2] Utilizo o termo doxa como ele é empregado por Anne Cauquelin in Teorias da arte Editora Martins Fontes, São Paulo, 2005 onde doxa se refere ao conjunto de conhecimentos comuns e que estão diluídos por toda a sociedade, mas que tem em seu interior uma soma de conhecimentos diversos.
[3] Louppe, Laurence. “Corpos Híbridos”, trad. Gustavo Ciríaco, In: Pereira, R. e Soter, S. (Orgs.) Lições de Dança 2, Rio de Janeiro: Univercidade Ed, 2000.
[4] Cauquelin, Anne Arte Contemporânea uma introdução Editora Martins Fontes, São Paulo, 2005.
[5] Deleuze, Gilles e Guatari, Felix Mil Platôs Capitalismo e esquizofrenia vol.1 Editora 34, Rio de Janeiro, 1995.
[6] Sontag, Susan Teatro e Cinema in A vontade radical Editora Cia das Letras, São Paulo, 1984
By Humberto Issao

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