A cena escrita. Escrever arquitetonicamente a cena. Transformar idéias em lugares, espaços, objetos, vazios. A escrita cênica ganhou forma e força desde o século XX através de grandes cenógrafos que foram além das limitações do espaço que lhe eram propostos – além da brilhante arquitetura grega – para ocupar o espaço como um todo.
Sontag nos diz que “a história da arte é uma sucessão de transgressões bem sucedidas”[1]. As realizações ao longo do século XX permitem hoje uma infinidade de possibilidades, ou seja, as transgressões bem sucedidas de Appia, Craig, Grotowisk, Ronconi e uma lista impossível de ser completa, afirmam-se hoje como hegemônicas. A utilização de espaços alternativos não figura como nota transgressora, mas como parte normativa da realidade dos trabalhos cênicos contemporâneos.
Colocar isso como norma implica em deixar evidente uma aceitação do público para espaços diferenciados. O palco ilusionista deixa de ser norma para se tornar exceção dentro do conceito de criação.
Sendo normativo os espaços ditos alternativos, o que pode então diferenciar os trabalhos realizados, não é, simplesmente, a sua criatividade na construção arquitetônica do espaço (a escritura cênica), mas na habilidade do cenógrafo estar em sincronia com as necessidades do trabalho.
O professor Arlindo Machado afirma que “A arte sempre foi produzida com os meios de seu tempo.”[2] O que implica em dizer a nós que para sermos membros do seleto grupo dos que se denominam artistas, temos que produzir com os meios do nosso tempo. Embora produzir com os meios do nosso tempo não valide uma obra como contemporânea, não utilizar os meios de seu tempo acaba por deslocar a obra para aquém, ou além, do mesmo.
O mesmo professor assinala que “Se toda arte é feita com os meios de seu tempo, as artes midiáticas representam a expressão mais avançada da criação artística atual e aquela que melhor exprime sensibilidades e saberes do homem do início do terceiro milênio.”[3]. Nesse pequeno ensaio, a cenografia do nosso tempo é aquela que utiliza-se, senão diretamente, pelo menos indiretamente as conquistas das artes midiáticas mas, principalmente, que grande parte das obras cênicas está trabalhando no topo das idéias mais avançadas desse início de terceiro milênio.
Costuma-se ao falar de artemídea pensar em um complexo e amplo aparato tecnológico envolvendo computadores, projetores, sensores de movimento, efeitos gráficos, nanotecnologia, biotecnologia e tudo àquilo que contenha um chip. Mas a absorção das conquistas da artemídea não são necessariamente tecnológicas.
Com a criação de novos aparatos tecnológicos não se extinguem os antigos aparatos, eles convivem, às vezes competem, mas na maior parte das vezes as inovações acabam por remodelar e obrigar o mundo a transformar sua perspectiva.
Assim ocorreu com a invenção da fotografia, do cinema, da internet. Dentre as inovações da artemídia as criações envolvendo as CAVES (Cave Automatic Virtual Envaironment) são a expressão máxima concreta e tecnológica do conceito de instalação, ela é uma das formas de realidade virtual.
Mas é importante salientar que ambientes imersivos existem desde a antiguidade como assinala o estudo de Oliver Grau[4], o que torna as CAVES mais intrigantes é a habilidade da imersão, dado que apesar de existirem ambientes imersivos desde a antiguidade, esses foram se aperfeiçoando técnica e sensorialmente. Sendo que as atuas Caves surpreendem em composição e interação.
Como aponta Grau, e nossa experiência direta, “Até mesmo crianças de seis anos são capazes de diferenciar entre a realidade e os mundos de faz-de-conta.”[5]. Ou seja, Caves são instalações incríveis, mas independente delas é necessário, ainda, que aquele que nela adentre deseje mergulhar nesse universo de faz-de-conta.
A habilidade essencial das CAVES é esfumaçar os limites da forma, limites estes dados claramente em formas delineadas, como as da televisão ou da caixa italiana, que nos fazem relembrar constantemente quem é o observador.
As criações cênicas contemporâneas têm absorvido a posição das CAVES e esfumaçado, elas também, os limites da observação. Colocando os espectadores em posições mais imersivas, dentro das obras, não apenas como observadores, mas como agentes em alguma instância.
Ambientes imersivos, conceito atualmente muito utilizado nas artemídia, são conceitos reapropriados, ambientes imersivos são utilizados em diversos trabalhos cênicos desde o século passado, ou seja, a apropriação da idéia de um ambiente imersivo onde os espectadores estejam dentro da obra não é uma novidade para a cenografia, basta pensar nos trabalhos realizados por Vitor Garcia, Bread.and Puppet Theatre, La Fura dels Baus entre outros.
Dito isso podemos considerar que a cenografia contemporânea tem como um dos seus possíveis pilares de identificação a imersão, a criação de ambientes imersivos. Espetáculos têm utilizado diversas possibilidades para isso: a cidade como ambiente imersivo (Teatro da Vertigem), a rua (Cia Nova Dança 4), casas(5PSA) ou Criado ambientes imersivos próprios (Michel Malamed, Oficina).
A cenografia contemporânea está trabalhando numa linha tênue de criação e transformação concatenando as possibilidades nesse início de milênio sendo relembrado a todo instante que o público cada vez mais eclético e interessado, ávido por novidades, está cada vez mais acostumado com espaços de imersão complexos.
Além disso a cenografia tem que estar em contato direto com seus parceiros de trabalho pois sua realização é parte do todo e deve estar servindo a esse todo. Utilizar-se de um espaço de imersão requer que todos os envolvidos estejam atentos ao que essa imersão pode e realiza com os espectadores.
Bibliografia.
Grau, Oliver Arte Virtual da ilusão à imersão Editora Unesp, Editora Senac, São Paulo, 2007
Machado, Arlindo Arte e Mídia Jorge Zahar editor, Rio de Janeiro, 2007
Sontag, Susan A vontade radical Cia das Letras, São Paulo 1933
[1] Sontag, Susan A estética do silêncio in A vontade radical Companhia das Letras São Paulo, 1933
[2] Machado, Arlindo Arte e mídia Editora Jorge Zahar editor Rio de Janeiro, 2007
[3] Ibid.
[4] Grau, Oliver Arte Virtualda ilusão à imersão Editora Unesp, Editora Senac, São Paulo, 2007.
[5] Ibid.
Sontag nos diz que “a história da arte é uma sucessão de transgressões bem sucedidas”[1]. As realizações ao longo do século XX permitem hoje uma infinidade de possibilidades, ou seja, as transgressões bem sucedidas de Appia, Craig, Grotowisk, Ronconi e uma lista impossível de ser completa, afirmam-se hoje como hegemônicas. A utilização de espaços alternativos não figura como nota transgressora, mas como parte normativa da realidade dos trabalhos cênicos contemporâneos.
Colocar isso como norma implica em deixar evidente uma aceitação do público para espaços diferenciados. O palco ilusionista deixa de ser norma para se tornar exceção dentro do conceito de criação.
Sendo normativo os espaços ditos alternativos, o que pode então diferenciar os trabalhos realizados, não é, simplesmente, a sua criatividade na construção arquitetônica do espaço (a escritura cênica), mas na habilidade do cenógrafo estar em sincronia com as necessidades do trabalho.
O professor Arlindo Machado afirma que “A arte sempre foi produzida com os meios de seu tempo.”[2] O que implica em dizer a nós que para sermos membros do seleto grupo dos que se denominam artistas, temos que produzir com os meios do nosso tempo. Embora produzir com os meios do nosso tempo não valide uma obra como contemporânea, não utilizar os meios de seu tempo acaba por deslocar a obra para aquém, ou além, do mesmo.
O mesmo professor assinala que “Se toda arte é feita com os meios de seu tempo, as artes midiáticas representam a expressão mais avançada da criação artística atual e aquela que melhor exprime sensibilidades e saberes do homem do início do terceiro milênio.”[3]. Nesse pequeno ensaio, a cenografia do nosso tempo é aquela que utiliza-se, senão diretamente, pelo menos indiretamente as conquistas das artes midiáticas mas, principalmente, que grande parte das obras cênicas está trabalhando no topo das idéias mais avançadas desse início de terceiro milênio.
Costuma-se ao falar de artemídea pensar em um complexo e amplo aparato tecnológico envolvendo computadores, projetores, sensores de movimento, efeitos gráficos, nanotecnologia, biotecnologia e tudo àquilo que contenha um chip. Mas a absorção das conquistas da artemídea não são necessariamente tecnológicas.
Com a criação de novos aparatos tecnológicos não se extinguem os antigos aparatos, eles convivem, às vezes competem, mas na maior parte das vezes as inovações acabam por remodelar e obrigar o mundo a transformar sua perspectiva.
Assim ocorreu com a invenção da fotografia, do cinema, da internet. Dentre as inovações da artemídia as criações envolvendo as CAVES (Cave Automatic Virtual Envaironment) são a expressão máxima concreta e tecnológica do conceito de instalação, ela é uma das formas de realidade virtual.
Mas é importante salientar que ambientes imersivos existem desde a antiguidade como assinala o estudo de Oliver Grau[4], o que torna as CAVES mais intrigantes é a habilidade da imersão, dado que apesar de existirem ambientes imersivos desde a antiguidade, esses foram se aperfeiçoando técnica e sensorialmente. Sendo que as atuas Caves surpreendem em composição e interação.
Como aponta Grau, e nossa experiência direta, “Até mesmo crianças de seis anos são capazes de diferenciar entre a realidade e os mundos de faz-de-conta.”[5]. Ou seja, Caves são instalações incríveis, mas independente delas é necessário, ainda, que aquele que nela adentre deseje mergulhar nesse universo de faz-de-conta.
A habilidade essencial das CAVES é esfumaçar os limites da forma, limites estes dados claramente em formas delineadas, como as da televisão ou da caixa italiana, que nos fazem relembrar constantemente quem é o observador.
As criações cênicas contemporâneas têm absorvido a posição das CAVES e esfumaçado, elas também, os limites da observação. Colocando os espectadores em posições mais imersivas, dentro das obras, não apenas como observadores, mas como agentes em alguma instância.
Ambientes imersivos, conceito atualmente muito utilizado nas artemídia, são conceitos reapropriados, ambientes imersivos são utilizados em diversos trabalhos cênicos desde o século passado, ou seja, a apropriação da idéia de um ambiente imersivo onde os espectadores estejam dentro da obra não é uma novidade para a cenografia, basta pensar nos trabalhos realizados por Vitor Garcia, Bread.and Puppet Theatre, La Fura dels Baus entre outros.
Dito isso podemos considerar que a cenografia contemporânea tem como um dos seus possíveis pilares de identificação a imersão, a criação de ambientes imersivos. Espetáculos têm utilizado diversas possibilidades para isso: a cidade como ambiente imersivo (Teatro da Vertigem), a rua (Cia Nova Dança 4), casas(5PSA) ou Criado ambientes imersivos próprios (Michel Malamed, Oficina).
A cenografia contemporânea está trabalhando numa linha tênue de criação e transformação concatenando as possibilidades nesse início de milênio sendo relembrado a todo instante que o público cada vez mais eclético e interessado, ávido por novidades, está cada vez mais acostumado com espaços de imersão complexos.
Além disso a cenografia tem que estar em contato direto com seus parceiros de trabalho pois sua realização é parte do todo e deve estar servindo a esse todo. Utilizar-se de um espaço de imersão requer que todos os envolvidos estejam atentos ao que essa imersão pode e realiza com os espectadores.
Bibliografia.
Grau, Oliver Arte Virtual da ilusão à imersão Editora Unesp, Editora Senac, São Paulo, 2007
Machado, Arlindo Arte e Mídia Jorge Zahar editor, Rio de Janeiro, 2007
Sontag, Susan A vontade radical Cia das Letras, São Paulo 1933
[1] Sontag, Susan A estética do silêncio in A vontade radical Companhia das Letras São Paulo, 1933
[2] Machado, Arlindo Arte e mídia Editora Jorge Zahar editor Rio de Janeiro, 2007
[3] Ibid.
[4] Grau, Oliver Arte Virtualda ilusão à imersão Editora Unesp, Editora Senac, São Paulo, 2007.
[5] Ibid.
by Humberto Issao

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