2008

21 de nov. de 2007

Ensaios: Convite ao Espaço

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O convite para trabalhar a cenografia do "Além de cada solidão" nos despertou um grande interesse, pois tínhamos desde antes um grande respeito pelo trabalho das pessoas envolvidas no projeto. Além disso, trabalhar com o teatro era uma experiência nova para ambas, e o grupo propunha uma discussão interessante sobre o tema da solidão e sobre a linguagem teatral.
Quando nosso trabalho começou, algumas idéias já estavam em andamento; o texto "Na Solidão dos Campos de Algodão" de Bernard-Marie Koltès havia sido escolhido como ponto de partida, e a organização do espaço cenográfico - com o público no centro da encenação e a cena acontecendo em 360º - já havia sido idealizada pela direção.
Assim, durante parte do trabalho nos dedicamos às resoluções técnicas, como o posicionamento de espelhos no teto para auxiliar o espectador a ter uma visão mais ampla da peça, e a instalação de uma cortina que ao mesmo tempo protegesse a coxia, criasse o ambiente que o espetáculo exige, e permitisse a livre circulação dos atores e dos objetos em cena.
Resolvidas tais questões, passamos a nos dedicar à parte poética de nosso cenário. Tendo como referência o texto de Koltés, buscamos uma paisagem urbana que conversasse com a linguagem da peça, no sentido de não se ater a uma representação figurativa.
Depois de várias tentativas de dar cara a essa paisagem, chegamos à conclusão de que ela teria que ser tratada de forma mais abstrata do que vínhamos tentando até então, pois queríamos construir um espaço que desse margem a múltiplas interpretações e sensações, que não colocasse o espectador como um agente passivo.
Chegamos à idéia final dos desenhos feitos no chão com giz depois da experimentação de diferentes materiais. Este permitia uma interação com os atores, resultando na sua transformação durante a peça e trazendo a noção da passagem do tempo, que nos era importante desde antes, em nosso trabalho pessoal.
Com essa escolha, percebemos que a idéia de cidade que vínhamos buscando era mais uma referência, uma experiência pessoal, que ao longo do processo nos permitiu construir esse espaço. A cidade, como o texto, foi ponto de partida, mas não de chegada. Com um cenário simples, sutil e neutro, cada um pode voltar-se para si e fazer uma aproximação pessoal desse espaço e também da peça. Em vez de seu reconhecimento, propõe-se a investigação.
Outra coisa interessante desse processo foi o desenvolvimento em grupo da pesquisa. Os trabalhos de cenografia, encenação, dramaturgia, direção e trilha sonora dependiam um do outro e se modificavam mutuamente.
A contínua pesquisa dos atores e da direção, por exemplo, nos levou à decisão de retirar os espelhos do cenário, que se tornaram excessivos, o que mostra como o diálogo enriquecedor e único continua a cada etapa do trabalho.
Mais do que qualquer resultado específico, importante é a criação em grupo, a construção coletiva do trabalho artístico, encontrar dentro do processo os espaços de criação e coerência, entender a lógica do organismo que se forma e participar ativamente das etapas do processo, sempre atentas ao que é criado, mas sempre conjuntamente.
By Elisa Pegolaro e Luciana Bertarelli.

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