Hoje o ofício da dramaturgia cada vez menos é sinônimo de trabalho solitário e a isso se dá a consciência cada vez maior de que o texto ficcional nunca termina, sendo o mais próximo do final o momento em que é lido.
Trabalhar com dramaturgia é trabalhar com algo que não existe, dependendo totalmente da memória do espectador para que as construções aconteçam. Digo isso porque a concatenação das idéias trabalhadas por um escritor só acontece se ao ler a próxima palavra o leitor ainda lembre da anterior. Assim como ao uma montar uma peça: a encenação só estará coerente se a próxima cena lembrar a anterior (ainda que seja em contraposição a esta), ou a interpretação só atingira seu grau de excelência se na última cena enxergarmos nos olhos do ator todas as situações emocionais predecessoras.
A dramaturgia contemporânea, por estar localizada em um tempo em que tudo é cada vez mais volátil, aponta para o limite da narrativa.
A presença de uma história lógica (lógica entendia como verossímil ao mundo ficcional criado) é tão importante quanto sua ausência, pois cada vez mais, enfim, entende-se que nem a própria vida é tão lógica quanto nossa antigas histórias. Nesse sentido, este desvincular da lógica narrativa permite ao dramaturgo promover o distanciamento do público, não mais com fins políticos, mas com fins sensíveis, para, na verdade, ao admitir a mentira, ganhar a confiança do espectador e levá-lo então, sem grandes entraves e desconfianças, para seu mundo desconexo e honesto.
Ocorre que, para esta nova dramaturgia, a criação colaborativa é de grande ajuda, pois faz com que mais facilmente o dramaturgo se desprenda de seu texto unilateral e absorva vozes outras da criação, concatenando, abrindo espaços para “momentos”. “Momentos” são pedaços do texto que a narrativa é abandonada em prol de algo maior: a comunicação, em tempo presente, da obra, qual voz única, para com seu receptor. É com esses “momentos” que a ausência da narrativa passa a ser tão importante quanto a própria¹.
Entende-se, portanto, que a obra deve propor uma experiência enquanto todo, ou seja, o contato do espectador com a obra já deve ser uma experiência marcante, independente da “história contada”, pois esta é apenas pressuposto para o encontro de pessoas, de sensibilidades. Mais ainda, o contato do receptor com a obra a finaliza de maneira individual e única, sendo compartilhada através do espaço-tempo coletivo que é o espetáculo.
Assim, a dramaturgia caminha para a consciência de sua necessidade de interação, bem como incorpora a necessidade da sociedade de se ver entretida (narração, costume milenar que dispensa justificativa), porém sentindo cada membro componente do todo visto de maneira individualizada, provendo “momentos” em que as individualidades, a falta de memória, ou seja, o presente e as divergências de interpretação são almejadas pela própria dramaturgia, criando uma conversa entre obra e público que é sempre nova e fresca.
¹Como exemplo de um ótimo uso de “momento” posso fazer referência a passagem de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, em que a menina chega carregando um saco de ossos e depois morre soltando borboletas. Observe que esse trecho do livro não progride a narrativa, mas é fundamental para meu contato com a obra. Outro bom exemplo é Dolls de Takeshi Kitano, em que a distribuiçao das informações que a narrativa propõe é constantemente interrompida para que se abra espaço para imagens que entram, de maneira sensível, em contato com o público, promovendo uma experiência única. Assim, mais do que a obra contar uma história ela conversa com o espectador em momento presente.
Trabalhar com dramaturgia é trabalhar com algo que não existe, dependendo totalmente da memória do espectador para que as construções aconteçam. Digo isso porque a concatenação das idéias trabalhadas por um escritor só acontece se ao ler a próxima palavra o leitor ainda lembre da anterior. Assim como ao uma montar uma peça: a encenação só estará coerente se a próxima cena lembrar a anterior (ainda que seja em contraposição a esta), ou a interpretação só atingira seu grau de excelência se na última cena enxergarmos nos olhos do ator todas as situações emocionais predecessoras.
A dramaturgia contemporânea, por estar localizada em um tempo em que tudo é cada vez mais volátil, aponta para o limite da narrativa.
A presença de uma história lógica (lógica entendia como verossímil ao mundo ficcional criado) é tão importante quanto sua ausência, pois cada vez mais, enfim, entende-se que nem a própria vida é tão lógica quanto nossa antigas histórias. Nesse sentido, este desvincular da lógica narrativa permite ao dramaturgo promover o distanciamento do público, não mais com fins políticos, mas com fins sensíveis, para, na verdade, ao admitir a mentira, ganhar a confiança do espectador e levá-lo então, sem grandes entraves e desconfianças, para seu mundo desconexo e honesto.
Ocorre que, para esta nova dramaturgia, a criação colaborativa é de grande ajuda, pois faz com que mais facilmente o dramaturgo se desprenda de seu texto unilateral e absorva vozes outras da criação, concatenando, abrindo espaços para “momentos”. “Momentos” são pedaços do texto que a narrativa é abandonada em prol de algo maior: a comunicação, em tempo presente, da obra, qual voz única, para com seu receptor. É com esses “momentos” que a ausência da narrativa passa a ser tão importante quanto a própria¹.
Entende-se, portanto, que a obra deve propor uma experiência enquanto todo, ou seja, o contato do espectador com a obra já deve ser uma experiência marcante, independente da “história contada”, pois esta é apenas pressuposto para o encontro de pessoas, de sensibilidades. Mais ainda, o contato do receptor com a obra a finaliza de maneira individual e única, sendo compartilhada através do espaço-tempo coletivo que é o espetáculo.
Assim, a dramaturgia caminha para a consciência de sua necessidade de interação, bem como incorpora a necessidade da sociedade de se ver entretida (narração, costume milenar que dispensa justificativa), porém sentindo cada membro componente do todo visto de maneira individualizada, provendo “momentos” em que as individualidades, a falta de memória, ou seja, o presente e as divergências de interpretação são almejadas pela própria dramaturgia, criando uma conversa entre obra e público que é sempre nova e fresca.
¹Como exemplo de um ótimo uso de “momento” posso fazer referência a passagem de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, em que a menina chega carregando um saco de ossos e depois morre soltando borboletas. Observe que esse trecho do livro não progride a narrativa, mas é fundamental para meu contato com a obra. Outro bom exemplo é Dolls de Takeshi Kitano, em que a distribuiçao das informações que a narrativa propõe é constantemente interrompida para que se abra espaço para imagens que entram, de maneira sensível, em contato com o público, promovendo uma experiência única. Assim, mais do que a obra contar uma história ela conversa com o espectador em momento presente.
By Eduardo Chatagnier

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